Engajamento político na rede reflete resultados nas urnas

A cada dois anos, o clima do país muda de maneira drástica. Seja para disputar eleições municipais ou estaduais e federais, partidos e candidatos concentram-se em seus QGs, montam os seus planos e iniciam guerras de intensidade dramática.

candidatos2

Como o alvo da disputa é o poder de governar dezenas de milhões de cidadãos, a munição costuma incluir distribuição de boatos, divulgação de escândalos, uso das máquinas públicas, de personalidades e de tudo mais que estiver ao alcance, normalmente fazendo da ética uma das primeiras casualidades de guerra.

As eleições de 2010, no entanto, trouxeram para o “front” uma ferramenta até então pouco utilizada em campanhas, mas que assumiu uma importância inquestionável: a Web. Ironicamente, foi no anárquico ambiente da Internet que muitas das batalhas pelo poder democrático foram travadas.

O início

Em 12 de abril de 2010, Dilma acabava de montar a sua conta de Twitter e somava um total de 16.732 seguidores. Na mesma data, José Serra, que já era conhecido da rede, contava com 196.396 seguidores. De acordo com o Datafolha, José Serra liderava as pesquisas de intenção de voto com 42%, versus 30% de Dilma Roussef.

Nesse mesmo período, começamos a medir os Índices de Saudabilidade dos candidatos via metodologia I-Brands.

Calculado com base no volume de postagens feitas sobre cada um deles na maioria das redes sociais (Twitter, blogosfera, Facebook, Orkut, Youtube e Vimeo) e considerando ainda as polarizações das mesmas postagens (positivo/ negativo), o Índice de Saudabilidade apontava uma espécie de satisfação do usuário para com a personalidade de quem ele estava falando.

A partir de abril, o número de ocorrências sobre os candidatos disparou, abrindo a temporada eleitoral na rede.

Os seus seguidores aumentaram e começaram a participar ativamente de suas campanhas, gerando uma situação de engajamento político que pode ser comprovada ao se comparar os gráficos de intenção de voto (de acordo com pesquisas da Datafolha) aos Índices de Saudabilidade de Dilma Roussef, José Serra e Marina Silva:

candidatos

Antes de analisar os três gráficos, faz-se importante reforçar o que cada um quer dizer.

A curva definida pelo I-Brands não mede intenções de voto, mas sim o percentual de ocorrências positivas do candidato na rede em relação à totalidade de ocorrências registradas nas redes sociais.

Por ocorrências positivas, entenda-se comentários elogiosos de usuários sobre as suas posturas, discursos e opiniões.

Perceba que os comportamentos das curvas de intenções de voto e de saudabilidade são praticamente idênticos.

Na prática, portanto, pode-se assumir que o acompanhamento da saudabilidade dos candidatos reflete, de maneira perfeita, o que deixa o eleitor feliz ou não com ele – algo que determinará a sua intenção de voto.

Serra busca Lula, e usuários reclamam
De abril a julho, o candidato Serra foi fortemente criticado na rede por querer se vincular à figura do Presidente Lula. Neste período, os usuários que até então se declaravam como eleitores tucanos começaram a se irritar com o candidato e a mudar de lado. Da mesma forma que a satisfação com ele caiu, as intenções de voto também caíram.

No começo de julho, a saudabilidade de Serra ficou, pela primeira vez, abaixo da de Dilma – da mesma forma que as intenções de voto.

Em julho, dois fatores ocorreram: o Presidente Lula mergulhou de cabeça na campanha de Dilma e, em paralelo, Serra elevou fortemente o tom de suas críticas à candidata petista.

O resultado provou-se desastroso para o tucano. Enquanto Dilma registrava índices de saudabilidade e intenções de voto recordes, Serra amargava as suas maiores quedas (tanto em intenção de voto quanto em saudabilidade).

Marina atrai a atenção
Em paralelo, a candidata Marina aparecia praticamente sem rejeição e com uma postura neutra: concentrava-se em propostas e batia na tecla da coerência, ora elogiando feitos do governo FHC, ora elogiando Lula, ora criticando a ambos.

O eleitorado se identificava com a candidata e começava a prestar mais e mais atenção a ela.

Até o princípio de setembro, a eleição parecia dar sinais claros de que terminaria no primeiro turno. Todavia, a primeira quinzena do mês viu os escândalos de quebra de sigilo fiscal e de Erenice Guerra alterar todo o cenário – mais uma vez.

A saudabilidade de Dilma mergulhou de forma acentuada. A de Serra subiu. A de Marina, já tida como terceira via, disparou. Já na reta final da campanha, essa mudança foi suficiente para que o pleito chegasse ao segundo turno.

Os nítidos paralelos traçados entre o “cidadão-eleitor” e o “cidadão-usuário”, por sua vez, deixam já claros o papel ímpar que a Web tem de apresentar tendências praticamente em tempo real – o que, se bem utilizado, pode fazer toda a diferença.

Quem melhor soube usar as tendências?
Ao longo de todo o período eleitoral, a campanha de Dilma e de Marina Silva pareciam fortemente alinhadas com a opinião dos usuários.

Dilma passou a utilizar o Twitter, principal ferramenta de comunicação rápida na rede, logo que percebeu que poderia perder a corrida para o Serra nas vias digitais.

Com isso, ela criou uma aproximação forte com a sua militância no ambiente em que esta mais poderia fazer e multiplicar barulho: a Web.

Assim, sempre que o tucano criticava Dilma de maneira mais pesada, as respostas eram dadas de maneira instantânea não por ela, mas pelos seus seguidores – deixando-a à margem de discussões que pudessem desgastá-la.

Blogs, comunidades no Orkut, páginas no Facebook e um perfil de Twitter com quase 250 mil seguidores a levaram do desconhecimento ao favoritismo em questão de meses.

Marina, por sua vez, seguia tocando a sua campanha focada em coerência – justamente o ponto mais elogiado de sua postura por toda a Web. Terminou em um louvável terceiro lugar, elogiada por todos e somando, apenas no Twitter, 283 mil seguidores – ainda mais do que a candidata petista.

Serra e os seguidores
Dos três candidatos, o único que frequentemente discordava do que os seus seguidores “pediam” foi José Serra.

Apesar de ter largado com ampla vantagem em intenções de voto, saudabilidade nas mídias sociais e presença inquestionável nos meios digitais, chegou ao segundo turno mais por conta dos escândalos na cúpula do governo petista do que por méritos de sua própria campanha.

De acordo com a própria rede, o seu trajeto poderia ter sido completamente diferente se ele tivesse ouvido os três pontos mais falados pelos seus seguidores:

1) Parar de se posicionar como opção de continuidade ao governo Lula
2) Diminuir o tom das críticas à candidata Dilma
3) Focar-se de forma mais intensa no seu próprio programa de governo

Ainda assim, Serra chega com chances concretas de vitória. O seu exército de seguidores no Twitter chega a quase 500 mil e muitos dos eleitores de Marina Silva já começam a declarar voto a ele em blogs, no Facebook ou na própria rede de microblogs.

Em paralelo, as curvas nas mídias sociais seguem apontando tendência de queda para a petista e de crescimento para o tucano. Resta saber se ele alinhará a sua campanha com a voz digital do seu eleitorado, o que certamente podera fazer toda a diferença.

E que venha o segundo turno!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s